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sexta-feira, 6 de julho de 2012

os gestos visíveis e os vistos

Anotações durante o último espetáculo (15/07), por Pedro Ribeiro


Uma casinha de bonecas e fadas.

Observados e observadores.

Um galã, um garanhão, -, -, -, e uma boneca.

Boneca dança, cabocla vem.



Japonês encurralado, crianças

felizes, correndo e pulando.

Uma sala de estar,

melodrama semi-erótico.

Rapaz dançando com música

e vai e vem.

La femme fatal

E um "I got the power",

embora também descrito por um "This is a mans world".

Uma casa de praia,

sexy doll deitada, japonês contemplativo,

maluco fumando, e chico chocando.

Um julgamento

e uma harmonia que dissolve o peso...

Um casal velho demais para eu saber o nome.

Uma baía

e uma baiana.

I´ve got a feeling

que o peito vai sair





quinta-feira, 28 de junho de 2012

a vertigem das listas


Uma cultura prefere formas fechadas e estáveis quando está certa de sua própria identidade, da mesma forma que quando se depara com uma acumulação confusa de fenômenos mal definidos, começa a fazer listas intermináveis. Há listas por excesso coerente que ainda reúnem entidades que tem algum tipo de parentesco, e há as listas que são uma reunião de coisas voluntariamente desprovidas de relações recíprocas, tanto que nesses casos costuma-se falar em ‘enumeração caótica’. O exemplo máximo de lista incongruente é o elenco dos animais da enciclopédia chinesa Empório celestial de conhecimentos benévolos, inventada por Borges, segundo a qual os animais se dividiriam em: “(a) pertencentes ao imperador; (b) embalsamados;(c) domesticados; (d) leitões; (e) sereias; (f) fabulosos; (g) cachorros soltos; (h) incluídos na presente classificação; (i) que se agitam como loucos; (j) inumeráveis; (k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; (l) etcétera; (m) que acabam de quebrar o jarrão; (n) que de longe parecem moscas". A lista se transforma num modo de remisturar o mundo, quase colocando em prática aquele convite de Tesauro a acumular propriedades pra fazer brotar novas relações entre coisas distantes ou, em qualquer caso, para colocar um talvez sobre aquelas já aceitas pelo senso comum.
Umberto Eco,  em A vertigem das listas
www.ciadanilima.com.br

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os gestos e seus significados em diferentes culturas

Fonte: Os gestos e seus significados em diferentes culturas


Os gestos e seus significados em diferentes culturas


Alguém ai já passou por uma situação constrangedora ao fazer um gesto quando foi pra algum outro país? Quem viaja para o exterior nem pensa que gestos bem simples têm significados muito diferentes, dependendo da cultura local. Por isso, veja antes de viajar, 10 gestos que mais causam confusão ao serem feitos no exterior.

Espalmar a mão:

Se for feito em situações corriqueiras, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos e México, significa “pare”, o número cinco ou uma saudação. Agora, se o contexto e a forma como o gesto for feito mudarem, no Brasil, na Grécia, nos Estados Unidos, no Paquistão e na África Oriental, ele pode ser tomado como um gesto de confronto ou de maldição ou até mesmo significar “dane-se” ou “converse com a minha mão”.

Chifre feito com os dedos indicador e mínimo:

Caso alguém faça esse gesto pra você no Brasil ou na Itália quer dizer que você está sendo traído. Porém, nesses mesmos países etambém na República Dominicana e nos Estados Unidos, esse gesto pode significar insulto sexual, referência ao diabo, referência o rock’n roll ou proteção contra pragas. Na região do Texas (EUA), se você vir alguém fazendo esse gesto em um estádio de futebol, quer dizer que o torcedor está dando apoio ao time pro qual ele torce. Já se for feito em certas regiões da África pode significar maldição e se for feito na Venezuela indica sorte, futuro promissor.

Dedos cruzados:

Cruzar os dedos no Vietnã não é uma boa ideia. Lá esse gesto é considerado obsceno para a populaçao local. Já no Brasil, Estados Unidos e Reino Unido, ele é usado para atrair sorte e boas energias.

Mão em formato de figa:

Esse gesto tem significados muito distintos. Se for feito no Brasil, em Portugal ou nos Estados Unidos, significa fertilidade ou desejos de boa sorte. Também é usado em uma brincadeira infantil chamada “peguei o seu nariz”. Já na Croácia, a figa não tem valor algum. Em China, Grécia, Turquia, Indonésia e Rússia, o gesto é totalmente ofensivo, significando “dane-se”. Já na Holanda e na Tunísia, o significado é ainda mais diferente. Nesses dois países, a figa representa o órgão sexual masculino.

Mãos no bolso:

Colocar as mãos no bolso no Brasil enquanto conversa com alguém é algo super normal. Porém, se você fizer isso na Indonésia, na França e no Japão você será considerado muito mal educado.

Dedos indicador e médio levantados em forma de V:

Também conhecido como “V da vitória”, esse gesto no Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá significa “paz e amor”, em referência ao movimento hippie. Se for feito de maneira invertida, com a palma da mão virada para dentro, o gesto adquire o significado de “dane-se” no Reino Unido, na Austrália, na Nova Zelândia e na África do Sul.

Dedo polegar levantado e os outros dedos fechados:

Esse gesto em muitos países tem um significado bom. Se for feito no Brasil, Estados Unidos, Finlândia Egito e Israel significa que algo é legal, é positivo. Também no Brasil, nos EUA e em alguns lugares da Europa é usado para pedir carona. No Japão, representa o número cinco, diferente da Alemanha onde representa o número um. Na França significa zero, nada. Agora se você fizer esse gesto na Turquia, na Nigéria, na Austrália, no Irã, em Bangladesh ou na Tailândia, se prepare. Na Turquia, é uma cantada para sair com um homossexual e nos demais países é um gesto obsceno.

Dedos indicador e polegar tocando-se em forma de círculo:

Se fizer esse gesto no Brasil ele pode assumir dois significados: de que está tudo “ok” ou ser um gesto obsceno. Nos EUA é muito normal para indicar que algo está ok. No Japão, representa valor financeiro (moeda, dinheiro), mas na França indica zero, nada. Na Turquia, indica que alguém é homossexual e na Alemanha também é um gesto ofensivo.

Dedos indicador e polegar apontados para cima:

Esse gesto pode representar dois numerais, dependendo do país onde são feitos. Na Holanda e na Bélgica, representam o número dois. Se feito na China, representa o número oito. Na Itália, ele indica que alguém ou algo é mau.

Indicador e polegar levantados, com o polegar mais relaxado:

Esse gesto é bem típico tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos para chamar o garçom. Se você fizer isso em uma bar na Alemanha, é certo que o garçom trará duas bebidas para a sua mesa. Porém, não faça isso na Malásia e no Japão, pois esse gesto é muito grosseiro.

Depois dessas dicas, ninguém mais comete gafes no exterior, não é mesmo? :D

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Síndorme de Tourette


"Os tiques podem ter um status ambíguo, a meio caminho entre convulsões ou sons sem sentido e atos com significado. Embora a tendência dos tiques seja inata na síndrome de Tourette, suas formas particulares tem com freqüência uma origem pessoal ou histórica.Assim, um nome, um som, uma imagem visual, um gesto, vistos talvez anos antes e esquecidos, podem inicialmente ecoar e serem imitados e, a partir daí, preservados na forma estereotipada de um tique. Esses tiques são como hieróglifos, resíduos petrificados do passado, e podem, de fato, com o decorrer do tempo, tornar-se tão hieroglíficos, tão abreviados, a ponto de perderem o sentido (assim como “God be with you” [Deus esteja convosco] foi condensado, esvaziado, após séculos, até o foneticamente semelhante porém inexpressivo “goodbye”[adeus]). Um desses pacientes, que atendi há muito, fazia um barulho trissilábico, explosivo e gutural, que se revelou, em análise, como uma forma acelerada, espremida, de dizer “Verboten !”, numa paródia convulsiva da voz germânica e constantemente proibidora de seu pai. Uma missivista recente, com síndrome de Tourette, me escreveu, após ler uma versão anterior deste texto, que “‘preservar’ [...] é a palavra perfeita para descrever os jogos recíprocos entre a vida e os tiques -- o processo pelo qual aquela se incorpora a estes... É quase como se o corpo touréttico se tornasse um arquivo expressivo -- ainda que embaralhado -- da experiência de vida da pessoa”.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

ainda pensando a partir de gesto X movimento


Me fascina  a leitura de gesto que faz Hubert Godard – “quando eu falo gesto, eu não penso unicamente no movimento, mas em todo seu aporte significante, simbólico” (Le geste manquant – Entretien avec Hubert Godard/ Nouvelle revue de psychanalyse), distinguindo –o de movimento – “ um fenômeno que descreve os deslocamentos estritos dos diferentes segmentos do corpo no espaço, do mesmo modo que uma máquina produz movimento”. Me fascina ver sua distinção sobre as obras de Cunningham e Trisha Brown. Será que posso ler o primeiro como autor de uma dança que se deseja movimento e a segunda como autora de uma dança que se deseja gesto? Estamos falando a nível de uma leitura muito minuciosa dos engajamentos gestuais de cada coreógrafo. Um nível profundo de detalhamento da observação das intenções do movimento (deveria dizer “intenções gestuais?) e de como suas diferenças produzem projetos  ético-estéticos de  naturezas tão distintas.
Como propõe Hubert, se pensarmos a atitude postural e o pré-movimento como um pano de fundo sobre o qual se desenha o movimento aparente (a figura), em Cunningham esta superfície de fundo se deseja neutra, invisível “desafetada”, para não “borrar” a figura da dança, para obrigar o espectador a ver o signo e a figura pelo que são. O bailarinos deve saber desenhar a forma sem ruído (..) ele não está lá para ser visto, mas para permitir o surgimento do signo procurado. Há um distanciamento entre a emoção do bailarinos e aquilo que ele produz. E ao eliminar esta emoção/afeto do bailarino na construção do movimento, ele tb elimina qualquer interpretação da figura dançada, distanciando, por sua vez, o espectador tb, que não encontra acessos para ser “levado diretamente pela dança”, sendo obrigado a dar conta do que vê com seu próprio imaginário perceptivo. O bailarino em Cunningham se quer marionete.
Já em Trisha(If you couldn’t see me), segundo Hubert ainda,nenhum signo, nenhuma figura é afirmada. Os movimentos são prolongamentos das tensões que existem a nível da emergência do pré-movimento. Então o espectador  só pode ler  a tela de fundo , a origem do movimento. Diz Hubert – “o marionetista é desnudado! Esta dança de Trisha  a qual se refere, o bailarino dança sempre de costas – esconde o rosto, privando o público de um dos signos mais legíveis de afeto - e dando visibilidade à tela de fundo, o pré-movimento como gerador dos signos. O bailarinos em Trisha, ao contrário de em Cunningham, são afetado por seu próprio movimento e é a partir desse se deixar afetar que o espectador também é afetado.

Pensando nos ensaios e nos exercícios que temos feito, me vem muitas coisas.
Me pergunto se teria uma destas duas estratégias, Cunninghamniana ou Browniana, que poderia dar melhor conta de dar visibilidade à gênese do gesto em si,
 ou se seria uma mistura das duas, tipo se deixar afetar pelo gesto (e revelar seu pré-movimento/intenção/afeto/pano de fundo)  e tb poder se distanciar dele, encará-lo como figura, como forma, não experimentá-lo afetivamente.
E a questão do rosto – o quanto ele entrega uma leitura imediata das tensões em jogo num gesto. E o que significa o contrário, qdo ele se quer neutro, quase que um território não tocado pelo gesto, um pequeno reduto de distanciamento dentro do corpo.
.......

segunda-feira, 30 de maio de 2011

mais associações ou desapropriando gestos

exercitando arqueologia/ (desapropriando) vestígios...





Where can you find pleasure

Search the world for treasure
Learn science technology
Where can you begin to make your dreams all come true
On the land or on the sea
Where can you learn to fly
Play in sports and skin dive
Study oceanography
Sign up for the big band
Or sit in the grandstand
When your team and others meet
In the navy
Yes, you can sail the seven seas
In the navy
Yes, you can put your mind at ease
In the navy
Come on now, people, make a stand
In the navy, in the navy
Can't you see we need a hand
In the navy
Come on, protect the motherland
In the navy
Come on and join your fellow man
In the navy
Come on people, and make a stand
In the navy, in the navy, in the navy (in the navy)

They want you, they want you
They want you as a new recruit!

If you like adventure
Don't you wait to enter
The recruiting office fast
Don't you hesitate
There is no need to wait
They're signing up new seamen fast
Maybe you are too young
To join up today
Bout don't you worry 'bout a thing
For I'm sure there will be
Always a good navy
Protecting the land and sea

In the navy
Yes, you can sail the seven seas
In the navy
Yes, you can put your mind at ease
In the navy
Come on now, people, make a stand
In the navy, in the navy
Can't you see we need a hand
In the navy
Come on, protect the motherland
In the navy
Come on and join your fellow man
In the navy
Come on people, and make a stand
In the navy, in the navy, in the navy (in the navy)

They want you, they want you
They want you as a new recruit
Who me?

They want you, they want you
They want you as a new recruit

But, but but I'm afraid of water.
Hey, hey look
Man, I get seasick even watchin' it on TV!

They want you, they want you in the navy
Oh my goodness.
What am I gonna do in a submarine?

They want you, they want you in the navy

sábado, 28 de maio de 2011

abrindo parênteses: aquilo que escapa ao gesto


G.E. de segunda-feira passada, 23/05/11, foi marcado pelo dia de esclarecimentos desconstrutivos (esclarecimento/desconstrução é um delicioso paradoxo, que, aqui, manteremos como um lúdico conflito filosófico). Passamos a noite de estudos esmiuçando as questões da desconstrução que apareciam como mais urgentes: desconstrução e metafísica, corpo, etnocentrismo, não-método da descontrução, leitmotiv, différance, logocentrismo, ética, violência, linguagem, escritura, suplementariedade, redução, dialética, alteridade... e muitas outras palavrinhas que se abrem em tantas outras portas.


Como eu já tinha anunciado que o faria, no G.E., para aprofundarmos essas discussões, apresentei uma introdução de forma mais geral sobre o percurso da desconstrução do pensador franco-argelino Jacques Derrida. Neste post, não vou tentar falar sobre toda a discussão que tivemos. Resolvi escolher um ponto da discussão que serve para pensarmos o projeto 100 gestos e desdobrar novas questões para além do que dissemos no GE.


Na minha fala no GE, inicialmente, tratei da tradição filosófica e sua busca pela "verdade", que ao longo da história foi suplementada por muitos nomes, conceitos e ações: idéia, essência, sujeito, razão, espírito, identidade, esclarecimento, emancipação, ser, dasein (...). Com esses dois últimos (ser/ dasein), chegamos ao filósofo alemão Martin Heidegger e seu projeto de "destruição da metafísica", que


(...) nada tinha de destrutivo; pelo contrário, ele buscava libertar os conceitos que ao longo da tradição, haviam enrijecido, pelo hábito de sua transmissão, em estruturas semânticas estáveis, fazendo-os retornar a experiência originária de pensamento da qual haviam brotado. (...) Muito sinteticamente, Heidegger pretendia retomar a experiência do sentido do ser que caíra no esquecimento, no decorrer da tradição, com a progressiva adesão do pensamento ao sentido objetivo das coisas. (Duque-Estrada, 2007, p. 53.)


A Destruição da Metafísica de Heidegger foi uma importante contribuição para o pensamento desconstrutivo de Derrida, sendo este último, se não, uma (des)apropriação do primeiro. O projeto heideggeriano trazia o termo Destruktion, em alemão. Derrida percebeu que a tradução para o francês, destruction, traria inevitavelmente um sentido negativo, criando então o termo “desconstrução” (deconstruction em francês). Apesar da aproximação etimológica do termo, o caminho traçado por Derrida foi distinto ao de Heidegger, o que traz a leitura derridiana uma soberania frente ao filósofo alemão. Para Heidegger, haveria uma verdade mais autêntica, o dasein (ser-aí, paraforeidade do ser), que tinha sido esquecida ao longo da metafísica e que precisava ser restituída. Já para Derrida não há como restituir o pensamento originário das coisas, até porque a “retomada da origem é manter-se no pressuposto por excelência de toda metafísica” (Duque-Estrada, 2007, p.54).


A partir dessa questão, no GE, pudemos problematizar algumas primeiras questões sobre o pensamento derridiano da desconstrução versus a questão do gesto. Dentre elas, gostaria de tratar da própria noção de genealogia do gesto. Toda genealogia que busca uma trajetória de originário, no pensamento da desconstrução, necessita se compreender como arbitrária. Arbitrariedade que também não deve ser temida, mas resistida. Buscar a gênese do gesto, por exemplo, precisa ser pensada como uma promessa e não uma afirmação.


Não se chega à origem de um dado gesto, pois os jogos de suplementariedade (rede de referencialidade da escritura) nos escapam. Isso não significa que as origens não existam. Muito pelo ao contrário, são construções de verdade, sempre arbitrárias. Necessidade de linguagem, comunicabilidade com o outro, desajeitada, que forja essa dada origem, gênese, trajetória evolutiva ou, ainda, mais amplamente falando compreensão, território, espírito, razão, logos (...) desse gesto.


Para Derrida a necessidade da linguagem seria uma violência que se impõe – crueldade – para dar conta do outro pelo enquadramento/redução do conflito da relação com o outro, que ele chama de logocentrismo. Cria-se uma verdade (originária) sobre o outro para detê-lo, abafá-lo; ainda assim, o outro sempre escapa, não se apreende, está sempre em devir (promessa de vir-a-ser). Nesse processo de entendimento (logocentrismo) e suas necessárias das ditas origens, verdades e purezas para apreensão, atrocidades são cometidas, promovendo uma potencialização da violência. Daí o pensamento da desconstrução admite que a arbitrariedade-violência não se pode evitar, porém precisamos exercitar uma resistência, tentativa de adiamento, também sempre em ação-promessa de não-redução.


Porém, esse exercício de resistir à geração de identidades (categorização) e entrega à errância de diferenciação (différance) não segue um molde pré-dado, ele precisa ser inventivo. Isso quer dizer que não se chega a um modelo de desconstrução, pois desconstrução é um movimento impossível. Sobre essa afirmação, Derrida (1990 apud DUQUE-ESTRADA, 2008, p.14) diz:


... as mais rigorosas desconstruções nunca se auto proclamaram como possíveis. E eu diria que a desconstrução não perde nada em admitir que ela é impossível (...). Possibilidade, para uma operação desconstrutiva, significaria, antes, o perigo. O perigo de se tornar um conjunto disponível de procedimentos, métodos e aproximações acessíveis baseados em regras. O interesse da desconstrução, de uma tal força e desejo que ela possa ter, é uma certa experiência do impossível.


Pensar a desconstrução como impossibilidade abre margens para aquilo que escapa ao mesmo e sua atualização. Nesse sentido impossibilidade é imanência de acontecimento. O "se deparar com o outro” (não somente o meu semelhante – humano –, mas qualquer outro – o que escapa), o face to face da desconstrução, é sempre uma solicitação de traição (também provisória) à possibilidade, à redução, ao que se apreende, ao logos, ao self.


Trazendo essa discussão para o nosso projeto 100 gestos, ao invés de buscarmos um princípio definidor de onde parte um gesto (biomecanicamente, culturalmente, socialmente, etc), num impossível exercício da desconstrução poderíamos pensar em gerar conflitos de origem, desdobrar o gesto, traí-lo, criar aforismos, legitimar a crise. Entender a pesquisa a um processo cirúrgico: reverter o corpo de cicatrizes.


No livro Enlouquecer o Subjétil (1998), Derrida fala desse processo cirúrgico na obra de Atonin Artaud como um forcener: uma cirurgia na busca de uma “verdade” (algo) que nunca chega, sempre o trai.


A tradução brasileira do termo sugere enlouquecer como equivalente, mas eu prefiro manter o termo em francês para remeter ao jogo na decomposição da palavra forcené (louco): “fora [for], forte [fort], força [force], fora [fors] e nascido [né]” (Derrida, 1998, p.34.). Na condição verbal, forcener, enlouquecer em francês, somente é tratado como verbo intransitivo. Derrida aprofunda o entendimento de tal concepção chegando à discussão do desmembramento etimológico da palavra, que vem do italiano fosennato, do latim foris, fora de, e do alemão Sinn, senso: fora de senso. Dessa maneira, ele indica que a ortografia forcené com c poderia ter sido apenas uma confusão com a palavra force, sendo mais correta a grafia forsené.


Derrida (1998, p. 35) diz:


A palavra corresponderia, portanto, ao termo alemão Wahnsinnige, de que Heidegger ressalta que não designa primeiramente o estado de um alienado (Geisteskrank), de um doente mental, mas principalmente daquele que é sem (ohne) o senso, sem aquilo que é o senso para os outros: ‘Wahn é palavra do alto-alemão antigo e significa ohne: sem. O demente [der Wahnsinnige, poderíamos traduzir aqui por forsené] sonha [sinnt] e sonha como nenhum outro teria meios de fazê-lo [...]. Ele é sensato de modo diferente [de um outro senso, anderen Sinnes]. Sinnan significa originalmente: fazer viagem, tender para..., tomar uma direção. A raiz indo-européia sent e set significa caminho’.


Forcener intransitivamente trata-se, portanto, de uma tomada de decisão para ingresso numa viagem que não busca um rumo acertado (senso), mas um estado errante de loucura e demência que toma uma direção não alienada, ou uma sensatez diferente em que não se busca nem o fim nem a certeza. Nessa perspectiva, ao forcener o gesto, como forcener le subjectile, o ato desconstrutivo estaria preocupado com um processo cirúrgico de intervenção que é requerido pelo gesto no seu processo de comunicabilidade. O gesto pede para afetado (“forcenido” ?), dilacerado. Forcener o gesto seria uma operação não para encontrar/apreender sua gênese mas uma “demiurgia ao mesmo tempo agressiva e reparadora, assassina e amorosa. A Coisa é reconstruída, a cicatrização lhe vêm do próprio gesto que a fere” (DERRIDA, 1998, p. 115). Tratar o gesto em busca do “si” para uma incessante entrega ao que escapa. Ato de amor, violência e traição.


Gênese do gesto como problema(.)(?) Gesto como problema(.)(?) Abertura (.)(?) Mudança de postura tanto ao proferir um gesto quanto ao receber/ler/perceber um gesto (.)(?)


Escolhamos onde por os pontos de interrogação.


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DERRIDA, Jacques. Enlouquecer o Subjétil. Ilustrações Lena Bergstein, Tradução Geraldo Gerson Souza. São Paulo: Ateliê Editorial: Fundação Editora Unesp, 1998.

DUQUE-ESTRADA, Paulo César (org). Espectros de Derrida. Rio de Janeiro: NAU Editora; PUC-Rio, 2008.

______. Desconstrução e incondicional responsabilidade. CULT: Dossiê: Psicanálise, linguagem, justiça, arquitetura e desconstrução na obra de Jacques Derrida. São Paulo, n. 117, 2007, p. 53-55. Setembro/2007 – Ano 10.

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(sRG)