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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Corpo- DOC : o gesto em questão

Corpo- DOC : o gesto em questão, dentro da ocupação Dança pra Cacilda. 
Entre as atividades, com a curadoria de Dani Lima, a mostra de uma série de entrevistas gravadas com profissionais de varias áreas sobre as idéias de gesto dentro de suas práticas; discussões e palestras.
A cada encontro uma discussão específica envolvendo o gesto e suas interpretações.Nesta quarta feira, dia 13 de Junho o tema é: gesto e filosofia
Participação dos filósofos Luiza Buarque ( sobre o texto “Notas sobre o gesto”, de Giorgio Agamben) e Charles Feitosa (sobre o livro “Les gestes”, de Villem-Flusser)
mediação : Dani Lima

CHARLES FEITOSA é Professor Associado de Filosofia da UNIRIO (DFCS/CCH), Doutor em Filosofia pela Universidade Freiburg i.B., Alemanha, autor de Explicando a filosofia com arte (RJ: Ediouro, 2004) e de diversos artigos nas áres de estética, fenomenologia e filosofia da cultura. É coordenador do POP-LAB - Laboratório de Pesquisas em Filosofia e Cultura Pop (http://filosofiapop.ning.com/), co-organizador do Simpósio Internacional de Filosofia: Assim Falou Nietzsche e co-editor das coletâneas homônimas que agrupam os principais textos do evento.

LUISA BUARQUE é Doutora em Filosofia pela UFRJ, tem Pós-Doutorado pela Sorbonne, é professora da PUC-RJ e atua na área de Filosofia Antiga. Possui também um trabalho extenso na área de Arte e Filosofia, e publicou um ensaio sobre Platão intitulado 'As Armas Cômicas: os interlocutores de Platão no Crátilo'."

DANI LIMA, bailarina e coreógrafa, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Formada em Jornalismo pela PUC-RJ (1998), é Mestre em Teatro pela Uni-Rio (2005), publicou o livro “Corpo, política e discurso na dança de Lia Rodrigues” (2007). Desde 2001 faz parte do corpo docente da Faculdade de Dança, UniverCidade/RJ.

Seu trabalho à frente de seu grupo investiga questões de identidade, alteridade, memória e percepção, investindo em experiências transdisciplinares e no desenvolvimento de uma poética do corpo cotidiano.



Vídeo do último encontro com Silvia Soter e Alice Ripoll. www.ciadanilima.com.br

domingo, 13 de maio de 2012

Dança pra Cacilda (Corpo.doc)

Esta quarta-feira, dia 16 de Maio, às 20 hs, no Teatro Cacilda Becker - Abertura do CORPO.DOC : O GESTO EM QUESTÃO, dentro da ocupação Dança pra Cacilda. 

Entre as atividades, com a curadoria de Dani Lima, a mostra de uma série de entrevistas gravadas com profissionais de varias áreas sobre as ideias de gesto dentro de suas práticas; discussões e palestras.

A cada encontro uma discussão específica envolvendo o gesto e suas interpretações.

16 de maio: GESTO e CORPO, com Silvia Soter

O que entendemos por gesto a partir de uma abordagem de educação somática? O que diferencia gesto e movimento, korpse e soma?
Mediação – Dani Lima

Outros encontros:
13 de junho: gesto e psicanálise
11 de julho: gesto e filosofia
25 de julho: gesto e dança
22 de agosto: um gesto brasileiro?

www.ciadanilima.com.br

domingo, 11 de março de 2012

ética gestual

Aqui, em primeira mão, o texto que estou finalizando para o livro do Seminário de de Dança 2011, do Festival de Dança de Joinville , cujo tema era: "Criação, ética, pa..ra..rá.. pa..ra..rá.. - modos de criação, processos que desaguam em uma reflexão ética".

À quem se animar de responder ao questionário, agradeço imensamente.


Ética Gestual
O que entendemos por gesto? O que entendemos por ética? Por que juntar essas duas idéias para pensar a criação em dança?
Pista 1: O analista do movimento Hubert Godard, no seu texto Gesto e Percepção, pg. 13, faz uma definição interessante de gesto – “Quando eu falo gesto, eu não penso unicamente no movimento, mas em todo seu aporte significante, simbólico”, distinguindo–o do conceito de movimento – “um fenômeno que descreve os deslocamentos estritos dos diferentes segmentos do corpo no espaço, do mesmo modo como uma máquina produz movimento” Para ele, portanto, para pensarmos movimento enquanto gesto temos que levar em conta, além da mecanicidade e da trajetória espaço-temporal de um movimento, todas as suas dimensões afetivas e projetivas. O gesto, para Hubert, “se inscreve na distância entre um movimento e a tela de fundo tônico-gravitacional do sujeito, isto é, no pré-movimento, que nada mais é do que  a nossa atitude em relação ao peso, à gravidade, que existe antes mesmo de se iniciar o movimento, pelo simples fato de estarmos de pé. Esta relação com o peso já contem um humor, um projeto sobre o mundo. É no pré- movimento que reside a expressividade do gesto humano, expressividade que a máquina não possui”.  Esta idéia de que a organização postural já é em si um gesto de resposta à gravidade pode ser percebida ao observarmos as posturas das pessoas em torno de nós, suas diferentes formas de estar no mundo, alguns resistem mais à gravidade, enquanto outros cedem mais. Essas diferenças foram gestadas por vivências físicas e afetivas distintas desde a meias tenra infância e, da mesma forma geram expressividades distintas. Se  olharmos também para os corpos, posturas e atitudes das diversas modalidades de dança a partir desse pensamento, veremos que as diferenças entre o corpo do bailarino clássico, por exemplo, e o corpo do dançarino do hip hop revelam não apenas que cada um desses corpos é treinado em um repertório específico de movimentos, mas também que possui um jeito particular de se posicionar enquanto sujeito no mundo. Partindo dessa perspectiva,  a rigor não existiria movimento humano que não fosse gesto, já que todo movimento é sempre atualizado pelo humor, afeto e intenção do momento, seja consciente ou não.
Pensar o movimento de dança enquanto gesto significa afirmar que na própria performatividade do movimento dançado, existe uma proposta de mundo, um discurso, um projeto político. Nenhuma dança é inocente.
Pista 2: O filósofo Giorgio Agamben, em seu artigo “Notas sobre o gesto”, usa a distinção aristotélica entre ‘fazer’ (poiesis) e ‘agir’(praxis) pra pensar o gesto. Segundo Aristóteles, o fim do ‘fazer’ é outro que não o próprio fazer; enquanto ‘agir’ seria um fim em si mesmo. Dessa forma, um drama teatral, por exemplo, seria ‘feito’ pelo poeta/dramaturgo mas não ‘agido’ por ele, e esse drama seria ‘agido’ pelo ator, mas não teria sido ‘feito’ por ele. O gesto, segundo Agamben, não é uma coisa nem outra, não é um meio para atingir um fim, nem um fim em si mesmo, mas rompe a “falsa alternativa entre meios e fins  e apresenta meios que se subtraem ao âmbito da própria medialidade pura que se comunica aos homens”. O  gesto é algo que se desnuda no ato da mediação e se torna puro meio, sem finalidade exterior a ele mesmo. (...) Não tem propriamente nada a dizer, porque aquilo que mostra é o ser-na-linguagem do homem como pura medialidade.” Pesquisando a etimologia da  palavra “gestus”, que vem do latim, vemos que sua origem está ligada por um lado às noções de gerir, gerenciar, gestão e de outro, à gestar, gestação. Concluindo portanto a partir desse conceito, Agamben afirma: “O que caracteriza o gesto é que nele não se produz nem se age, mas se assume  a inteira responsabilidade e suporte de alguma coisa. Isto é, o gesto abre a esfera do ethos como esfera mais própria do homem. De que modo uma ação é assumida e suportada?”

Pista 3: Se a dança é o domínio do gesto por excelência,  é lícito afirmar que o movimento dançado é um discurso. Um corpo que dança revela a especificidade da performance que ele inicia, onde as informações que se processam nele se articulam e se dão a ver com todas as implicações políticas e sociais que lhe são implícitas, seja nas relações que ele engendra com o próprio movimento, com o espaço, com o espectador, com a cena e etc. O que cabe para o corpo que dança se aplica também para a cena. Todo dispositivo espetacular já implica em si mesmo a experiência de uma certa forma de uma comunidade, de um certo modo de estarmos juntos. O tempo de espetáculo é um tempo partilhado entre aqueles que fazem e aqueles que assistem. É uma “partilha do sensível”, para usar o brilhante termo do filósofo Jacques Rancière. No caso da dança, em particular, está em jogo a forma como se configuram as relações intersubjetivas entre dançarinos, as relações deles com o tempo e com o espaço partilhados com o público, as escolhas  de composição, de dramaturgia e de todos os artifícios que compõem a cena (figurinos, cenário, trilha sonora ...), assim como na própria gênese do movimento, no gesto (esta complexa combinação de fatores como tempo, espaço, fluxo, peso, olhar, presença, dinâmica, forma, que muitas vezes escapa às nossas tentativas de sistematização), há também escolhas que revelam uma forma de estar e agir no mundo, um tomada de partido, uma ética, um projeto político. Volto a Rancière para trazer sua elucidação sobre o conceito de política, e mais especificamente, das relações entre arte e política. Rancière propõe que para pensarmos a paisagem artística contemporânea seja necessário reconfigurar o que se entende por estético e político hoje. “A arte não seria política por transmitir mensagens políticas, ou representar estruturas sociais ou políticas. A arte seria política no sentido em que ela ‘enquadra um sensorium específico de espaço-tempo e na medida em que este sensorium define maneiras de estar juntos ou separados, de estar dentro ou fora, em frente de ou no meio de, etc.’ (Rancière 2005, site da Internet). O autor propõe pensarmos em uma ‘política da estética’, segundo a qual ‘as práticas artísticas participam da partilha do que é perceptível na medida que elas suspendem as coordenadas habituais da experiência sensória e recompõem a rede de relações entre espaços e tempos, sujeitos e objetos, o comum e o singular’(2005). Esse é um pensamento bonito e potente uma vez que afirma que a arte tem a possibilidade de criar outros mundos possíveis porque tem a potência de reconfigurar nossas sensibilidades e transformar nossas subjetividades.
Conclusão em aberto: Cada vez que colocamos um corpo dançando em cena afirmamos um projeto de mundo, dizemos com  gestos o que para nós é importante e o que não, o que merece ser apreciado, em que valores acreditamos, quais bandeiras defendemos. Nenhum gesto é inocente, nenhuma dança é “só estética”. E cada projeto estético, por sua vez, não é independente do mundo que o cerca, ele foi gestado nesse mundo e com ele dialoga, dando visibilidade ou invisibilidade a determinados parâmetros, dando voz ou calando algum discurso, e dessa forma colaborando na manutenção ou na transformação dos valores que o engendram.
Mas todas estas relações são extremamente complexas e não podem ser reduzidas a parâmetros simplistas, como o fazem os manuais que classificam e interpretam gestos de acordo com seus supostos significados, como se os gestos não  fossem estruturas plásticas, que se transformam e ganham novos sentidos de acordo com o contexto no qual estão inseridos. Levando então em conta a dificuldade (impossibilidade?) de se estabelecer parâmetros gerais para entender as relações entre gesto e ética, entre estética e política, vou finalizar este artigo com uma questão e uma provocação: A gente escolhe nossa ética ou ela nos escolhe? Muitas das nossas escolhas éticas, estéticas, afetivas são inconscientes, são heranças adquiridas nas relações familiares e sócio-culturais, nas informações apreendidas e processadas no percurso da vida. Nem sempre se faz a escolha que se quer fazer, muitas vazes se faz a escolha que se pode fazer em determinado momento. Reconhecer as próprias escolhas, aprender a discursar conscientemente  é um aprendizado contínuo que requer apetite para a reflexão e pra auto-crítica. Deixo aqui, então, um questionário, que pode funcionar (ou não) como uma pista pessoal de auto-reconhecimento ético-estético: Qual são as suas preferências quando você assiste a um espetáculo de dança? o que você espera do artista, o que você espera que ele te proporcione?
beleza
harmonia
talento
corpos bonitos
inteligência
eficiência
maestria e domínio do seu material
clareza de propósitos
controle da cena
relação direta com os espectadores
interação
ilusão
magia
transe
catarse
virtuosismo
humor
alegria
diversão
presença
mistério
glamour
entrega
engajamento
paixão
sofrimento
prazer
auto-exposição
auto-superação
risco
vulnerabilidade
fragilidade
identificação
entendimento, compreensão
conhecimento
surpresa
novidade
arrebatamento sensorial
emoção
...
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quinta-feira, 21 de julho de 2011

No GE, mais de Hubert Godard

No último GE, 18 de julho, estivemos mais uma vez discutindo questões de Hubert Godard, dessa vez através do texto Le Geste Manquant (O Gesto Faltante) – texto em que Godard faz relação do gesto com a psicanálise. Bom, o texto não tem tradução para português, mas temos a dupla sorte de termos no GE a Silvia Soter, que morou muitos anos na França e inclusive conheceu pessoalmente o Godard, e Eléonore Guisnet, “francesa original”, portanto dispensa comentários. Funcionou assim: Soter ia lendo e traduzindo diretamente para português; nos momentos em que algo truncava Guisnet socorria (com todos os artifícios gestuais, mímicos... enfim, o problema da tradução).

Como, para mim, francês é ultra mandarim, não vou me arriscar a traduzir nem mesmo afirmar colocações de Godard. Vale ressaltar que não tive acesso ao texto escrito... somente ouvi a tradução e fiz uns rabiscos no caderno de pontos que marcaram a discussão e me fizeram pensar em coisas outras. Alguns desses pontos, acredito, escapam ao próprio texto, mas chegou de alguma forma por conta dele e seu em torno. Vou transcrevê-los como aparecem no caderno...

Podemos então comentá-los sem fidelidade ao texto pelo exercício do desdobramento. Aqui faço um convite a quem possa interessar a manter as dobras:

  • Godard parece querer discutir a relação entre gesto e carga simbólica, evidenciando sempre que toda ação simbólica surge de uma experiência concreta anterior. Ex.: O gesto de negar (gesto com a mão) está relacionado à experiência de empurrar algo com as mãos, afastar do corpo. Ou seja, a forma como se nega algo está relacionado a uma experiência de corpo no mundo;
  • Sendo o gesto advindo de uma experiência física/concreta mais do que uma “kinesfera” e uma “dinamosfera” como apresentou Laban, segundo Godard, nós seríamos portadores de uma “gestosfera“, que é singular às experiências de cada indivíduo, portanto irregular, disforme;
  • Imagem corporal se constrói na relação com o mundo e é constituída de caráter simbólico e afetivo. Sendo assim podemos fazer relação entre imagem corporal e gestosfera, pois ambos se constituem frutos da experiência;
  • Do ponto de vista da psicanálise X gesto, a noção de autonomia do indivíduo está relacionada desde o primeiro momento em que o bebê sai do eixo da mãe (o corte umbilical) e passa a se relacionar com a postura, o peso, a resistência a gravidade, o empurrar do chão, comer, se relacionar com objetos, etc.
  • Lembro que falei de uma relação “heterautonoma” (heteronomia X autonomia) ou uma “autonomia intransitiva”: o bebê passa a não depender mais diretamente da mãe para se relacionar no espaço mas passa a operar dentro de um jogo de codenpendências ao outro, que é sempre por vir, impossível de ser apreendido. Sendo assim, o eu (indivíduo, self, sujeito...) se diz autônomo porém é pertencente a um jogo de alteridade. Nesse sentido, todo self é exteroceptivo. O dito “eu” que converso comigo mesmo (que se diz lá dentro) é um outro (exterior) como quem esse outro eu conversa. Eu-outro, interior-exterior, se confundem... mas, politicamente, me parece interessante perceber esse jogo relacional como outro-outro.
  • Seria possível pensar a gestosfera como uma ética corporal? Modo de operação/relação com o mundo. Experiência – alteridade – corpo – postura – carga simbólica...
  • Já que o gesto está imbricado o fator ético, como não cair no risco da leitura do corpo? Como aquelas dicas e cursos de “psico-RH” que diz quais posturas e gestos são mais adequados numa entrevista de trabalho ou numa negociação com o cliente... “etiqueta”. Talvez, seja o caso de discutir sobre a não restituição do gesto.
  • Falamos no GE que o gesto se diferencia de movimento justamente porque gesto se constitui na relação/tensão com o outro. Mas seria possível pensar num movimento isolado do outro? Que movimento escaparia ao jogo de co-dependência? Pensar nessa premissa também não parece admitir “gesto” como uma intenção de encerrar significado ou regulador da comunicação? - regulador aqui não deve ser entendido negativamente... regulador como mecanismos de intenção/desejo.

Não conseguimos terminar a leitura/tradução do texto... muito porque íamos parando para discutir coisas. Godard tem sido um grande parceiro para desdobrarmos questões sobre o gesto. Essas observações que transcrevi são super anotações e rabiscos pessoais. Podemos desdobrar essas questões ou trazer outras, associá-las. Semana que vem retornaremos a Godard em outro texto, dessa vez em português, intitulado "Olhar cego" - entrevista concedida a Suely Rolnik. Enquanto isso, façamos rabiscos em cima de rabiscos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

neurônios-espelho


Toda a conversa sobre imitação e contaminação evocou a idéia dos "neurônios-espelho".


Sandra Blakeslee escreve para o “The New York Times”:

Há 15 anos, num verão em Parma, na Itália, um macaco esperava em um laboratório que os pesquisadores voltassem do almoço. Delicados fios haviam sido implantados na região do seu cérebro que planeja e executa movimentos.

Todas as vezes que o macaco agarrava ou movimentava um objeto, algumas células dessa região do cérebro disparavam e um monitor registrava um som.

Um aluno de pós-graduação entrou no laboratório com uma casquinha de sorvete na mão.

O macaco olhou fixamente para ele e, em seguida, algo espantoso aconteceu: quando o estudante levou a casquinha aos lábios, o monitor soou novamente – mesmo o macaco não tendo feito nenhum movimento, apenas observado o aluno.

Os pesquisadores, chefiados por Giacomo Rizzolatti, um neurocientista da Universidade de Parma, já tinham observado esse mesmo estranho fenômeno com amendoins.

As mesmas células cerebrais disparavam quando o macaco via seres humanos ou outros macacos levarem amendoins à boca ou quando ele próprio fazia isso.

Os cientistas descobriram células acionadas quando o macaco quebrava a casca de um amendoim ou ouvia alguém fazê-lo. O mesmo ocorria com bananas, uvas passa e todo tipo de objetos.

"Demoramos anos para acreditar no que estávamos vendo", diz Rizzolatti.

O cérebro do macaco tem uma classe especial de células, os neurônios-espelho, que disparam quando o animal vê ou ouve uma ação e quando a executa por conta própria.

Mas, se essas descobertas, publicadas em 1996, surpreenderam a maioria dos cientistas, uma recente pesquisa deixou-os estupefatos.

Descobriu-se que os seres humanos têm neurônios-espelho muito mais perspicazes, flexíveis e altamente evoluídos do que os encontrados nos macacos, um fato que teria resultado na evolução de habilidades sociais mais sofisticadas nos seres humanos.

O cérebro humano tem múltiplos sistemas de neurônios-espelho especializados em executar e compreender não apenas as ações dos outros, mas suas intenções, o significado social do comportamento deles e suas emoções.

"Somos criaturas requintadamente sociais", diz Rizzolatti. "Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não pensando."

A descoberta está sacudindo várias disciplinas científicas, alterando o entendimento de cultura, empatia, filosofia, linguagem, imitação, autismo e psicoterapia. E também de fatos do cotidiano.

Os neurônios-espelho revelam como as crianças aprendem, por que as pessoas gostam de determinados tipos de esporte, dança, música e arte, por que assistir a cenas de violência na mídia pode ser danoso e por que há quem goste de pornografia.

Encontradas em várias partes do cérebro, essas células disparam em resposta a cadeias de ações relacionadas a intenções.

Algumas são acionadas quando uma pessoa estende a mão para pegar um copo ou observa alguém pegar um copo; outras disparam quando a pessoa coloca o copo sobre a mesa e outras ainda quando a pessoa estende a mão para pegar uma escova de dentes e assim por diante.

Elas reagem quando alguém chuta uma bola, vê uma bola sendo chutada e diz ou ouve a palavra "chutar".

"Quando você me vê executar uma ação, você automaticamente simula a ação no seu cérebro", diz Marco Iacoboni, neurocientista da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), que estuda o tema.

"Circuitos cerebrais o inibem de se mover, mas você entende minhas ações porque tem no seu cérebro um padrão dessa ação baseado nos seus próprios movimentos." 

NEURÔNIOS-ESPELHO EM TRÊS ATOS
1. Resposta aos outros: ela é essencial para a tomada de atitude em situações de perigo.
2. Imitação: extremamente importante para os processos de aprendizagem. É imitando que começamos a falar, a andar e até mesmo a sorrir.
3. Empatia: a tendência para sentir o mesmo que uma pessoa na mesma situação é fundamental na construção dos relacionamentos. E explica, em grande parte, por que devemos manter por perto quem eleva o nosso astral.

Crianças com autismo têm grande dificuldade para se expressar, compreender e imitar sentimentos como medo, alegria ou tristeza. Por isso se fecham num mundo particular e acabam desenvolvendo sérios problemas de socialização e aprendizado. Não à toa, cientistas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, nos Estados Unidos, resolveram investigar a relação entre os neurônios-espelho e a doença.
 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Forçando...Formas...Forsythe

Formas que deformam em ato...


Quando improvisamos gestos, quando o delineamos, um dos recursos imaginários que recorremos é o desenho de formas do movimento no espaço. Como um pincel, espátula, marionete, faca, lápis... desenhar o gesto, modelá-lo passa a lidar com esse jogo de formas. O interessante é perceber que quando trabalhamos com esses "desenhos" estamos também tentando fugir deles. O desenho em ato-dança é a própria tentativa de fuga, pois o rastro do movimento se apaga antes mesmo que se perceba o contorno, a forma.


Forsythe Improvisation Technology, desenvolvido pelo bailarino e coreógrafo Willian Forsythe, é um bom exemplo para pensarmos a relação entre poética (programa artístico, intenção, operação artística) e o acontecimento do gesto, ou mais especificamente, ao escape do gesto na dança. Cito dois videos dele: um solo super famoso (http://www.youtube.com/watch?v=hDTu7jF_EwY) e um outro onde ele explica-fazendo sua poética.

Vejamos:







Nesse vídeo "explicativo", o recurso tecnológico utilizado para evidenciar a permanência do rastro (desenhado no computador) amplia a potência de percepção do gesto, mas ao mesmo tempo me faz pensar sobre o que escapa ao desenho. O gesto de Forsythe no ato de dançar parece está mais próxima à ideia de escape do que a de contorno que ele parece querer evidenciar. Podemos pensar no exercício de escritura de uma poesia: tentativa de escrever e escapar da palavra, do sentido, da linguagem, duplamente no ato de escrever (e aqui poderíamos pensar também no ato de desenhar, ou dançar, ou modelar gestos). Um jogo ente o que é previamente pensado e o que resulta, acontece, ou que é grafo e o que sentido, o que é signo e o que é escrita, o que é presente e o que é outrora, ausente ou por vir. O gesto duplo escapa de sua concretude, mas joga com ela deformando-a, deslocando-a.


Lembrei, ainda, de Bachelard, O Ar e o Sonho (1990, p. 01), que fala da "ação imaginante" como ato de deformar imagens:


A exemplo de tantos problemas psicológicos, as pesquisas sobre a imaginação são dificultadas pela falsa luz da etimologia. Pretende-se sempre que a imaginação seja a faculdade de formar imagens. Ora, ela é antes a faculdade de deformar as imagens fornecidas pela percepção, é sobretudo de libertar-nos das imagens primeiras, de mudar as imagens. Se não há mudança de imagens, união inesperada das imagens, não há imaginação, não há ação imaginante. Se uma imagem presente não faz pensar numa imagemausente, se uma imagem ocasional não determina uma prodigalidade de imagens aberrantes, uma explosão de imagens, não há imaginação. Há percepção, lembrança de uma percepção, memória familiar, hábito das cores e formas.


No GE, temos falado muito do gesto enquanto modelador. Achei interessante pensarmos como esse "modelador" também joga com ato de deformar - imaginAção - presente/outrora - gesto - rascunho - escape. Talvez nos ajude a pensar-fazer em outros resultados.